Quando menino e morava no interior de Minas gerais, meu avô era proprietário de uma fazenda que tinha uma serraria, marcenaria e um moinho. Todas as máquinas desta fazenda eram movidas pela força do Ribeirão Mombaça que corta a cidade de Dionísio.

Este lindo ribeirão foi o palco da história da nossa cidade com suas violentas enchentes e seus suaves poços de banho. Lembro como hoje de após chegar da escola, almoçava e meus amigos já estavam passando na minha casa para irmos ao Poção, lugar onde escorregávamos numa rocha e caíamos num poço fundo. Além deste escorregador havia nesta rocha um buraco (a panela como dizíamos) onde os mais corajosos, escorregavam e caiam nele, ficando escondido debaixo da cortina de água. Nos dias de chuva, eu e meu irmão Marquinhos, esperávamos a chuva passar pra pescar Mandi, um bagre que só aparecia após a água ficar amarelada pelo barro dos barrancos.

Todos que visitavam Dionísio eram levados por nós nativos, para se deliciarem no nosso paraíso natural, e o que queríamos mesmo era ouvir: ”Puxa como sua cidade é legal por ter esta natureza exuberante!”, isso fazia um bem para o coração do Dionisiano.

O homem construiu suas comunidades na beira d’água, onde quer que esteja neste mundo sempre foi assim. Mas porque ele se distanciou tanto desta água com o passar do tempo? Como maltrata tanto essa água? Como se esquecer deste elemento vital para qualquer vida?
Primeiro ele joga seu esgoto, depois corta a Mata Ciliar pra plantar pasto, abre grandes cavas para a mineração, desvia seu curso, despeja fertilizantes químicos e  veneno na agricultura contaminando o lençol freático, cobrem os cursos d’água com rodovias urbanas...

Cara, onde estamos? Que futuro eu desejo para o planeta? Tem um ditado que eu sempre ouvia: “Quem chegar por último bebe barro!”, isso se tornou real hoje. Uma das coisas mais faladas por todos é de economizar água nas casas. A responsabilidade sempre cai em cima das pessoas comuns, mas a agricultura de monocultura gasta mais água do que qualquer setor. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), aproximadamente 70% de toda a água potável disponível no mundo é utilizada para irrigação, enquanto as atividades industriais consumem 20% e o uso doméstico 10%. No Brasil, o índice de consumo de água nessa atividade chega a 72%, com uma área irrigável de aproximadamente 29,6 milhões de hectares. Já a indústria nacional consome aproximadamente 22% da água, quase o triplo dos 6% de uso exclusivamente humano. O desperdício no Brasil também é preocupante e chega a ficar entre 50% e 70% nas cidades.

A qualidade da água também é um ponto que merece atenção. Enquanto em países da União Europeia permitem o uso de até cinco agrotóxicos na água potável, no Brasil a água pode conter 22 tipos de agrotóxicos, 13 de metais pesados, 13 de solventes e seis de desinfetantes para ser consumida.

O velho Ribeirão Mombaça que era largo e que batia na minha coxa, hoje está bem estreito, raso, assoreado, sem mata ciliar, com cheiro de esgoto. Considerando as cidades como um organismo vivo, a água deste organismo pode ser representada como o sangue que circula por todo ele, trazendo vida a todos os pontos onde ela passa. O que fazer após tantos anos de pouca consciência? O homem como autor de desastres é também uma estrela de belas reconstruções. Vejam a despoluição do Rio Sena em Paris que usa processos naturais.

Não podemos ficar olhando as coisas acontecerem e não fazer nada. Estamos apenas falando! Vamos agir, pois temos tempo e somos nós, pessoas comuns que precisamos correr atrás, pois os que estão lá em “cima” terão água por um bom tempo ainda. Nossa força quando agimos com a natureza é impressionante, pois é elevada para além do material.