Pode-se dizer que Howard antecipou a catástrofe do agronegócio que leva à destruição da camada de húmus e à sua substituição por insumos químicos.

Sir Albert Howard nasceu em 1873, de uma família de agricultores do Shropshire, Inglaterra, e morreu em 1947. É considerado o iniciador da revolução da agricultura orgânica, sendo que as suas principais pesquisas se desenvolveram na Índia. Foi lá que desenvolveu o Processo Indore de compostagem e estudou a fundo a cultura agrícola dos camponeses, a quem atribuiu, no seu “testamento”, o título de “meus professores”.

Pode-se dizer que Howard antecipou a catástrofe do agronegócio que leva à destruição da camada de húmus e à sua substituição por insumos químicos. O “saque” do solo agrícola em detrimento de uma agricultura que deveria alimentar de forma saudável a humanidade é sua principal denúncia. No que tange aos procedimentos sustentáveis de manejo do solo agrícola, ainda nas primeiras décadas do século XX, percebeu na sabedoria camponesa a capacidade de manter a fertilidade do solo por sucessivas gerações através de procedimentos simples, procedimentos que previam a incorporação permanente de húmus ao solo.

As suas formulações irônicas e críticas foram usualmente endereçadas aos procedimentos considerados “científicos” e que omitiam um tratamento mais holístico ao ambiente agrícola. A sua opa acompanha a rápida substituição de homens e animais na atividade agrícola nos Estados Unidos, anos 1930. Naquele momento já procurava desconstruir algumas crenças que passaram a ser inventadas para a utilização científica do solo. Já antevia que a substituição do cavalo e do boi pelos motores de combustão interna ou motores elétricos estavam trazendo uma conseqüência desvantajosa e fatal. “Essas máquinas não produzem urina, nem esterco. Assim não contribuem em nada para a manutenção da fertilidade do solo”. Howard alerta para o fato de que, na implantação da tecnificação, há uma sedução pela temporária ilusão de que aquela agricultura poderia ser um negócio proveitoso. No momento seguinte começa-se a perceber, contudo, o aumento de doenças pela maciça utilização de adubos químicos e pelo esgotamento das reservas naturais de húmus.

Howard aprecia fazer comparativos históricos com civilizações passadas considerando procedimentos sustentáveis para a utilização do solo. Ele destaca, por exemplo, que a agricultura do Império Romano entrou em crise por ser incapaz de manter o solo em condições férteis. Howard é da opinião de que os agricultores que se jogam na tecnificação sem reflexão estariam repetindo o erro da antiga Roma. É irônico, contudo, o seu exemplo sope sustentabilidade no meio agrícola chinês se considerado o atual modelo de “desenvolvimento” a qualquer custo preconizado para aquele país. À época da sua pesquisa, constatou serem os camponeses chineses os que melhor conseguiam fazer a agricultura sustentável, dando especial atenção à restituição de todos os resíduos para o solo, o que os aproximava dos métodos executados pela própria natureza. Este seria o segredo que teria feito os chineses terem mantido uma população grande na terra sem que houvesse, concomitantemente, uma perda da fertilidade do solo. Howard lempa que a agricultura precisa estar sempre em equilípio. Se ocorrer a necessidade de acelerar o crescimento, seria preciso também acelerar os métodos de decomposição para a recomposição do solo. “Se, por outro lado, as reservas do solo são exauridas, a produção deixa de ser agricultura racional: torna-se algo muito diferente. O fazendeiro é transformado em bandido” .

Um aspecto curioso do testamento de Howard são as suas considerações sobre a utilização da urina de animais nos processos de fertilização do solo. Os rígidos controles de sanidade animal do tempo presente fariam restrições às práticas defendidas por Howard. De acordo com as suas pesquisas, a urina seria a substância-chave na elaboração do húmus à base de resíduos vegetais. De acordo com Howard, a urina contém, de forma solúvel e equilipada, o nitrogênio e as substâncias minerais, e as demais substâncias acessórias que necessitam das bactérias e dos fungos para desintegrar a celulose e realizar com isso o primeiro passo na síntese do húmus. Howard observa que grande parte dessa substância vital para a reconstituição da fertilidade se desperdiça ou se utiliza de forma imperfeita.

Na sua visão de cientista, observa que por si só este seria um fato que bastaria para explicar a destruição da agricultura do Ocidente. Esta constatação parte da observação de que os primeiros colonos, ao ocupar as paisagens de campos da América do Norte, durante muitos anos produziram grandes colheitas de trigo, devido à fertilidade acumulada em decorrência da “contribuição fisiológica” de vastas manadas de bisões.

O Processo Indore, que no Brasil é conhecido como processo de compostagem, recebe uma larga atenção na sua obra. Tem este nome por originar-se do Estado de Indore, na Índia. A compostagem é uma técnica natural de recomposição do solo. E é deste processo, método ou técnica que emerge uma das teses basilares discutidas no seu testamento. Foi durante os estudos com as formas de compostagem que Howard observou que a base da saúde e da resistência às enfermidades estava intimamente relacionada à fertilidade do solo.

Howard acredita que existam evidências suficientes de que produtos saudáveis sejam de grande valia para o bem-estar da humanidade. Ao concluir seu testamento, ele se aventura a prever que, pelo menos, a metade das doenças humanas desapareceria se os suprimentos alimentares passassem a ser produzidos em solos férteis e consumidos em estado natural.

A apropriação da ciência para atender a interesses de acumulação de capital é duramente criticada por Howard no seu testamento. Ele observa que, quando se faz uso da ciência para produzir novas variedades de altos rendimentos que exaurem até o último grama de fertilidade dos solos, adubos mais baratos e de efeito mais rápido, máquinas que realizam cultivos mais profundos e mais pesados, galinhas poedeiras que põem ovos até a morte, e vacas que se desfalecem num oceano de leite, deve estar faltando um pouco de bom senso por parte dos responsáveis por estas pesquisas. A constatação de Howard é a de que a pesquisa agrícola tem feito dos fazendeiros, não produtores de alimento de melhor qualidade, mas, sim, hábeis saqueadores dos recursos naturais. A finitude do solo e o uso predatório de procedimentos “científicos” na agricultura é uma temática transversal na opa do autor. A pesquisa na agricultura, contudo, não é descartada pelo autor, embora defenda a sabedoria milenar camponesa de trato com o ambiente num procedimento inteligente e sustentável. A pesquisa qualificada, fundamentada em parâmetros sustentáveis, é aceita e estimulada pelo autor. O assunto recebe atenção em um dos capítulos da sua opa. As suas reflexões observam que, nos processos de modernização da agricultura, não se tem observado um procedimento considerado essencial para a sustentabilidade do solo agrícola: para um acelerado crescimento.