Quando Bose ainda era criança, seu pai já discernira dolorosamente o maior impacto do sistema de educação britânico sobre a Índia: a imposição de uma servil e monótona imitação de todas as coisas ocidentais e o vício de aprender de cor.

A vida vegetal ampliada 100 milhões de vezes

Na costa oriental do subcontinente indiano, na velha província de Bengala, ergue-se em quatro acres de terra à beira da estrada  Archarya  Prafullachandra, ao norte  da Universidade de Calcutá, um conjunto de prédios feito de um belo arenito roxo e acinzentado  segundo o modelo clássico da Índia  pré-muçulmana.  O prédio principal, conhecido como o templo Hindu da Ciência, exibe uma inscrição; “Aos pés de Deus, este templo é dedicado  a alcançar honra para a Índia e felicidade para o mundo”.

Logo na entrada está exposta uma série de curiosos instrumentos concebidos há mais de cinquenta anos para avaliar o crescimento e o comportamento das plantas, em seus mínimos detalhes, pelo aumento  desses processos a até 100 milhões de vezes. Protegidos por vidro, os aparelhos em questão dão um testemunho cabal do grande cientista bengalês em cuja obra se uniram os campos da física, da fisiologia  e da psicologia e cujas descobertas sobre as plantas foram mais numerosas que as de qualquer outro homem antes e, talvez,, depois dele, mas que permanece quase ignorado pelas histórias clássicas dos assuntos em que se especializou.

Os prédios, com seus jardins, constituem o Instituto de Pesquisas construído por Sir Jagadis Chandra Bose, de cujo trabalho no campo da fisiologia vegetal a Enciclopédia Britânica apenas pôde dizer, já quase meio século depois de sua morte, que ele fora tão avançado em relação à época  a ponto de tornar impossível uma avaliação precisa.

Em 1852, quando Bose ainda era criança, seu pai já discernira dolorosamente o maior impacto do sistema de educação britânico sobre a Índia: a imposição de uma servil e monótona imitação de todas as coisas ocidentais e o vício de aprender de cor. Em vez de matricular seu filho numa escola primária colonial, o velho Bose, assim, contentou-se em manda-lo para uma simples pathasala aldeã.

Aos quatro anos, o menino ia para a aula  nas costas de um ladrão regenerado, ou dacoit, o qual só arranjara trabalho com o pai dele, depois de cumprida uma longa pena em grades. Ao mesmo tempo em que ouvia,  desse dacoit, casos de lutas cruentas e aventurosas escapadas, o menino era exposto à bondade natural de um homem que encontrara apoio após ter sido rejeitado pela sociedade como um criminoso. “ Nenhuma ama -  escreveu Bose no fim da vida – poderia demonstrar mais carinho do que esse chefe de homens sem lei. Embora ele escarnecesse das minúcias  da sociedade, tinha a mais profunda veneração pela lei moral natural”.

Ainda na infância, os contatos de Bose, com camponeses foram fundamentais para a sua própria visão do mundo. Certa vez, declarou numa reunião acadêmica: “Desses que trabalham a terra e a fazem brotar e se cobrir de verde, desses filhos de pescadores fascinados pelas histórias de estranhas criaturas que frequentam as profundezas dos rios poderosos e das águas estagnadas, foi que por primeiro aprendi uma lição sobre o que constitui a verdadeira condição de homem. E foi deles, também, que derivei meu amor pela natureza.”

Quando Bose se diplomou pelo Colégio de São Xavier, seu brilhante professor Frei Lafont, impressionado pelo pendor do rapaz para a  matemática e a física, aconselhou-o a ir para a Inglaterra e preparar-se  para o concurso de ingresso no serviço público. O pai de Bose, que conhecera na própria carne a estreiteza dessa profissão, encorajou-o  porém a se tornar um homem de saber, e não um administrador, com a perspectiva de controlar apenas a si mesmo.

No colégio de Cristo, Bose estudou física, química e ciências botânicas com homens do quilate de Lord Rayleigh, descobridor do argônio na atmosfera, e Francis Darwin, filho do teórico evolucionista. Aprovado em Cambridge nos exames para o título de distinção, bacharelou-se em ciências, no ano seguinte, pela Universidade de Londres. Mas, ao ser designado professor de física no Colégio da Presidência de Calcutá, que passava por ser o melhor da Índia, Bose contou não só com a oposição do diretor do colégio, como também do diretor da instrução pública de Bengala, ambos aferrados à idéia generalizada de que nenhum hindu tinha competência para ensinar ciências.

Não conseguindo se livrar de Bose, protegido por uma recomendação do diretor-geral dos correios mandada diretamente ao vice-rei, ofereceram-lhe uma designação especial, com apenas a metade do salário dos professores ingleses, e não lhe deram facilidades para desenvolver pesquisas. Em sinal de protesto, Bose se recusou por três anos  a receber seu pagamento, forçando-se a passar por privações que a situação de seu pai, então endividado, agravava ainda mais.

A eficiência de Bose como professor é atestada pelo fato de nunca ele ter feito chamada em suas aulas, às quais acorria de bom grado uma multidão de alunos. Reconhecendo seu talento, as autoridades não tiveram outra alternativa senão lhe conceder um pagamento integral.

Embora não dispusesse de outros meios além do próprio salário, uma salinha de seis metros quadrados convertida em laboratório e um funileiro iletrado por ele preparado para ser seu mecânico, Bose se decidiu, em 1894, a tentar aperfeiçoar os aparelhos recentemente ideados por Heinrich Rudolph Hertz para transmitir pelo ar ondas de rádio ou hertzianas. Hertz, que morreu nesse mesmo ano, com a idade prematura de 37 anos, surpreendera o mundo científico ao cumprir em seu laboratório a profecia do físico escocês James Clerk Maxwell, feita quase duas décadas antes, de que as ondas de qualquer “ perturbação elétrica no  éter” – cuja variedade e alcance estavam longe de ser conhecidas – evidenciariam, como as da luz visível, os fenômenos da reflexão, da refração e da polarização.

Enquanto Marconi ainda tentava em Bolonha transmitir sinais elétricos pelo espaço sem fios -  competição que oficialmente ganhou contra os esforços similares de Lodge, na Inglaterra, de Muirhead, nos Estados Unidos, e de Popov, na Rússia -  Bose já obtinha sucesso.

Em 1895, um ano antes de ser concedida a patente de Marconi, o cientista hindu, durante uma solenidade na prefeitura de Calcutá, presidida por Sir Alexander Mackenzie, governador de Bengala, transmitiu ondas elétricas do salão de conferências – vencendo três paredes e o próprio corpanzil de Mackenzie – para um cômodo a mais de 20 metros de distância, onde elas desarmaram um relé , impulsionando uma pesada bola de ferro, disparando um revólver e detonando uma pequena mina.

As realizações de Bose começaram então a atrair a atenção da Real sociedade Britânica – equivalente às academias de ciências de outros países – que, por instância de Lord Rayleigh, convidou-o a publicar em seus anais um estudo sobre a “Determinação do comprimento de onda da radiação elétrica”, além de oferecer-lhe uma ajuda em dinheiro proveniente de seu crédito parlamentar para o progresso da ciência. A isso se seguiu a concessão do título de doutor em ciências a Bose pela Universidade de Londres.